Sobre as lutas do padres de BVR

Carta publicada no Site do Tadeu Souza enviada pelo Pe. Manoel do Carmo.

 
Amigos, na tradição da Igreja Cristã Primitiva não é muito comum membros da hierarquia da Igreja desempenharem atividade oficiais nas instâncias governamentais do poder civil como prefeito, governadores, imperadores, etc.
É muito mais comum pessoas que desempenharam esses papéis se converterem e entrarem para a referida hierarquia é o caso do bispo de Milão, Santo Ambrósio ( 340-397 d. C), que possivelmente converteu e batizou Santo Agostinho (354-430 d. C). 


Ambrósio que foi um excelente filósofo e governador de Milão (baseando-se na República de Platão), não era cristão e estando como governador na catedral de Milão por ocasião da eleição do novo bispo devido, a morte do bispo anterior, e querendo dar uma certa tranqüilidade na eleição do futuro bispo, foi aclamado bispo pelos fiéis que estavam na catedral, ficou tão apavorado com a aclamação que se retirou para seu sítio nos arredores de Milão e só aceitou o episcopado devido um pedido do imperador romano da época, assim foi instruído pelo sacerdote Simpliciano sendo mais tarde batizado e recebeu as ordens sacras e o episcopado. Foi Ambrósio quem manifestou a expressão teológica que “compete à Igreja interferir nas coisas públicas quando o poder temporal não está governando segundo a justiça”. 


Ainda temos intervenções nas questões públicas por parte de autoridades da Igreja, só para citar mais dois: São João Crisóstomo – bispo de Constantinopla que se opôs fortemente contra a má gestão pública do imperador de Constantinopla de sua época , fato esse que lhe rendou dois exílio que no segundo morreu na cidade do Ponto na região do Mar Negro e Santo Agostinho, bispo de Hipona que foi um baluarte com suas intervenções mediante ao governo romano de Hipona diante das injustiças sociais acometidas pelo então poder temporal. Essas figuras não só interferiram nas questões públicas de seu tempo como foram verdadeiros exemplos de vidas e defensores dos pobres e da fraternidade universal, jamais usaram de seu poder religioso para tirar proveitos das pessoas. 

É a partir de aqui que tento dialogar com a problemática do Prefeito de Boa Vista do Ramos e os padres da paróquia de São Sebastião dessa referida cidade. Os referidos reverendos têm todo o direito, a partir do evangelho, veja as ações de Jesus frente ao Império Romano, e baseando-se nessa tradição da Igreja Primitiva acima lembrada de se posicionar e se manifestar perante ações que não estejam condizentes com a justiça social e administração justa dos poderes públicos, além do mais pelo que me consta eles são brasileiros, papéis esses que lhe são assegurados pela Constituição Brasileira. 

Entendo que não é papel da Igreja participar partidariamente da política em forma do parlamento, do Executivo e Legislativo, isso não tem base na história da Igreja, mas da política com propositura do bem comum é dever sagrado dela participar com seus fiéis e o povo em geral. Em geral, as experiências ocorridas de hierarcas nas funções públicas de governo e parlamento, muitas vezes leva a saídas deles das funções religiosas, exigências da Igreja, como também até mesmo deixar o ministério sagrado. 


É bom que as pessoas entendam que os padres além das funções internas da Igreja são cidadão e enquanto cidadão tem o dever e o direito de agir como essa denominação lhe propõe. Vamos em frente amigos padres na luta pelo bem do povo e da Igreja de São Sebastião de Boa Vista do Ramos. 

Fonte: Site do Tadeu Souza

Um comentário

BLOG DO ALDEMIR DE MAUÉS disse...

O texto bem elaborado, tráz à tona o momento ao qual vivemos com relação Igreja/Estado. Bem lembrado da Igreja Primitiva, no entanto, acrescento que não tão longe assim, aqui no Amazonas, quando esse ainda era provincia, só desemenhavam cargos majoritários públicos, os religiosos, chamados de Cônegos, depois, outras personalidades puderam assumir esses postos. O que está ocorrendo em Boa Vista e Maués é que membros da Igreja, alguns padres, assim como a maioria da população, não aceitam esse estado de descompromisso com a população praticada pelos gestores desses municípios. Os padres, podem sim, se quiserem, concorrer e até exercer cargos públicos/políticos. O que a Igreja e seus membros não PODEM e nem deve fazer, é cruzar os braços e ficarem omissos diante de tamanha barbárie pela qual o povo mais carente está passando. Adiante padres heróis e que Deus possa iluminar todo o povo e que se encontre alternativas para que as mudanças BOAS possam acontecer.